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A Teoria Crítica das Relações Internacionais

No capítulo 21 do livro Teoria das Relações Internacionais, o economista e professor universitário Gilberto Sarfati aborda a Teoria Crítica das Relações Internacionais (RI), abrangendo sua definição, origens, autores e conceitos basilares. Assim, o objetivo deste resumo é apresentar de forma clara e precisa os principais pontos destacados por Sarfati em relação à Teoria Crítica das RI, assim como as suas contribuições para essa área acadêmica.

Em primeiro lugar, Sarfati descreve a Teoria Crítica como um projeto de caráter emancipatório, uma vez que considera que o estudo das RI deve ter por fim último a eliminação de todas as formas de dominação presentes na humanidade, incluindo não só a dominação material e do Estado, mas também as que possuem caráter racial, étnico, sexual, e assim por diante. Nesse sentido, o autor aponta que a Teoria Crítica foi fortemente influenciada por acadêmicos da Escola de Frankfurt, destacando figuras como Walter Benjamin, Herbert Marcuse e Jurgen Habermas.

De fato, tanto a Teoria Crítica quanto a Escola de Frankfurt tentam conciliar as ideias de Karl Marx e Immanuel Kant, trazendo elementos de ambos autores. Segundo Sarfati, o caráter crítico dessas duas correntes em relação às estruturas sociais pode ser considerado neomarxista ou até mesmo pós-marxista. Isso se deve à abordagem que considera não apenas os aspectos materiais da dominação social, mas também os seus aspectos cognitivos e subjetivos. Por outro lado, ambas teorias adotam uma visão pós-positivista ligada à filosofia crítica de Kant, que se refere aos limites do conhecimento científico, pois se considera que ele é resultado das condições históricas e materiais nas quais foi produzido.

Por sua vez, o autor explica as quatro realizações principais da Teoria Crítica, segundo o acadêmico estadunidense Andrew Linklater

1) A noção de que não há forma de se avaliar objetivamente a realidade, uma vez que a teoria, tal como afirma Robert Cox, “é sempre para alguém e para algum propósito”. Ou seja, não se pode separar a teoria do pesquisador, pois sua visão é influenciada pelo tempo e espaço em que se encontra; 

2) Derruba a tese da imutabilidade social, associada às teorias tradicionais das RI, como o neo-realismo. Isso quer dizer que não há fenômenos naturais na vida política e social (por exemplo, o caráter anárquico das RI), o que possibilita a formulação de caminhos alternativos para a sociedade; 

3) Supera o marxismo, pois considera que a exclusão de classes não é a única forma de dominação social existente. Oferece, assim, uma visão alternativa para a ordem social que assegure a liberdade de opressão para além da ordem produtiva; 

4) Promove novas formas de organização política que sejam livres de exclusão de qualquer tipo. Assim, a Teoria Crítica é um projeto que visa explicar os problemas da ordem dominante, indicando também as formas de superá-la.

Em relação ao ponto 3, Cox afirma que há três tipos de forças envolvidas na construção e manutenção das hegemonias: as capacidades materiais, as ideias e as instituições, que são interdependentes entre si. Nesse sentido, Sarfati argumenta que não se pode analisar a ordem hegemônica considerando apenas seu papel no âmbito militar e econômico, como afirmam as teorias realistas e neo-realistas.

Por outro lado, o autor explica que a principal objeção da Teoria Crítica em relação ao Estado seja o estabelecimento de rígidas fronteiras nacionais que separam “nós” de “eles”, promovendo, consequentemente, a exclusão e a injustiça entre comunidades, consideradas como entidades separadas e totalmente independentes umas da outras. Assim, a Teoria Crítica procura evitar os discursos excludentes, defendendo a adoção de uma “ética universal dos excluídos”, com base em princípios morais, políticos e legais de caráter universal. No entanto, também leva em consideração as necessidades específicas dos indivíduos, mantendo o respeito pelas diferenças culturais, étnicas, de gênero, e assim por diante. Dessa forma, a humanidade passaria a adotar uma forma cosmopolita de governança, que transcende a visão excludente dos Estados contemporâneos.

Sob essa perspectiva, Linklater apresenta três formas alternativas de organização social a nível internacional: 

1) Uma sociedade pluralista de Estados; 

2) Uma sociedade de Estados com princípios morais substantivos em comum; 

3) Um sistema pós-westfaliano, no qual os Estados abrem mão de parte de seus poderes soberanos, visando uma divisão oficial do poder político e das normas morais.

Em qualquer um dos casos, a ética discursiva desempenha um papel fundamental para a reconstrução das RI, pois é ela que assegura uma alternativa democrática para a formação das políticas e acordos internacionais. Assim, pode-se afirmar que a Teoria Crítica reflete a necessidade contínua de repensar e reformar as RI, considerando abordagens mais inclusivas e éticas, a fim de promover um ambiente global cada vez mais equitativo e justo.



BIBLIOGRAFIA


- Sarfati, Gilberto (2005) Teoria das Relações Internacionais. São Paulo: Editora Saraiva, Capítulo 21.

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