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O Liberalismo Clássico nas Relações Internacionais

No capítulo três do livro Introdução às Relações Internacionais: Temas, Atores e Visões (2004), a professora universitária Cristina Soreanu Pecequilo apresenta as principais correntes teóricas das Relações Internacionais (RI). Nesse capítulo, a acadêmica aborda o conceito de liberalismo, assim como seus princípios e forma de funcionamento conforme definido pelos teóricos liberais. Neste resumo, serão abordadas apenas as partes do texto correspondentes aos conceitos de liberalismo e de liberalismo clássico, ou seja, das páginas 137 a 148.

Primeiramente, Pecequilo fornece uma contextualização histórica sobre o surgimento do liberalismo enquanto corrente de pensamento. A autora menciona que, a partir dos séculos XVII e XVIII, começaram a surgir propostas teóricas que favoreciam as classes burguesas, que gozavam de uma influência crescente na época, defendendo o que posteriormente passaria a ser conhecido como liberalismo.

Por outro lado, Pecequilo destaca alguns dos principais autores que contribuíram para a formação da teoria liberal na área política, tal como John Locke, Montesquieu e Immanuel Kant. Em relação a este último, a autora menciona alguns dos seus aportes mais relevantes, como o estabelecimento de princípios universais e a integração entre os Estados como forma de garantir a paz.

Ademais, Pecequilo salienta que, na perspectiva dos teóricos liberais, há um pacto coletivo entre os Estados e os indivíduos, que teria levado à criação do Estado Civil a partir de um Estado de Natureza caracterizado pela anarquia. Uma vez no Estado Civil, o papel do Estado é garantir os direitos individuais, tal como a propriedade privada. Segundo os teóricos liberais, esse pacto teria sido necessário, mesmo que os seres humanos sejam essencialmente bons (uma perspectiva que difere abertamente do realismo), uma vez que a criação de regras é fundamental para estabelecer um ambiente pacífico e harmonioso.

Seguindo essa mesma linha de pensamento, Pecequilo enfatiza que os Estados precisam de normas que garantam o bem-estar individual e comum entre eles, assim como os indivíduos precisam estabelecer regras para evitar um estado de caos e anarquia. Além disso, a autora destaca três premissas necessárias para a cooperação entre Estados: governos democráticos, interdependência econômica e instituições que promovam a interação harmoniosa ao nível internacional. Diferentemente da perspectiva realista das RI, o liberalismo atribui maior importância ao papel das organizações internacionais como agentes promotores da paz e da cooperação entre os Estados.

No entanto, a autora ressalta que do ponto de vista realista, as organizações internacionais teriam uma atuação secundária em relação aos Estados. Além disso, a interdependência seria responsável por gerar situações em que alguns Estados se tornam mais vulneráveis às ações de outros, sendo isso uma das críticas mais comuns em relação ao liberalismo.

Já no caso específico do liberalismo clássico, referido no texto como idealismo wilsoniano, a autora menciona que foi, sobretudo, uma proposta estadunidense, surgida no contexto do pós-Primeira Guerra Mundial. Além disso, é considerada a primeira proposta teórica no campo das RI, na qual se percebem alguns dos princípios gerais do liberalismo que foram mencionados anteriormente, uma vez que a política exterior dos Estados Unidos era baseada na ideia de cooperação com outros Estados democráticos, estabelecendo laços políticos e econômicos por meio de organizações internacionais (como a Liga das Nações) que tentavam promover a manutenção da paz e a soberania de cada Estado-membro. Entretanto, Pecequilo ressalta que com a chegada da Segunda Guerra Mundial, as teorias liberais perderam força, passando a ser vistas como uma perspectiva utópica e distorcida da realidade, sobretudo da perspectiva dos teóricos realistas.

Em suma, Pecequilo apresenta de forma breve e sucinta o conceito de liberalismo e de liberalismo clássico, assim como o contexto de surgimento de cada um e as contribuições que deixaram no campo das RI, tornando-o um texto bastante útil para estudantes de RI, Ciência Política e outras áreas afins.




BIBLIOGRAFIA

- Pecequilo, Cristina Soreanu (2004) Introdução às Relações Internacionais: Temas, Atores e Visões. Petrópolis: Editora Vozes, pp. 137 – 148.

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