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| Imagem via: https://theconversation.com/the-global-south-is-on-the-rise-but-what-exactly-is-the-global-south-207959 |
No capítulo 10 do livro Theories of International Relations, a acadêmica da Universidade de Ottawa Rita Abrahamsen apresenta uma análise detalhada da Teoria Pós-Colonial das Relações Internacionais (RI), desvendando suas raízes, principais expoentes e conceitos centrais. Nesta resenha, buscaremos aprofundar nossa compreensão da Teoria Pós-Colonial das RI, explorando os principais tópicos abordados por Abrahamsen.
Primeiramente, Abrahamsen afirma que já na década de 1990, o movimento pós-positivista estimulara a formulação de perspectivas mais amplas das RI, com vista a iniciar um diálogo com os sujeitos tradicionalmente excluídos desse espaço. Nesse sentido, os teóricos feministas, pós-modernistas e da Teoria Crítica trouxeram importantes contribuições para as RI, desafiando e expandindo os horizontes conceituais da disciplina. Porém, autores que escreviam a partir do denominado “Terceiro Mundo” continuavam a ser ignorados, perpetuando uma lacuna significativa na representatividade do campo.
Segundo Abrahamsen, essa exclusão revela uma tendência persistente nas RI: a manutenção de um viés construído a partir das experiências e práticas discursivas do Ocidente. Assim, a abordagem pós-colonial, surgida no âmbito dos estudos literários e culturais na década de 1980, coloca as perspectivas dos países e dos sujeitos “subalternos” no centro das análises, evidenciando as complexas relações de poder/conhecimento entre o Norte Global e o Sul Global, seja no passado colonial ou no presente pós-colonial.
A Teoria Pós-Colonial caracteriza-se por sua natureza multidisciplinar e pela sua preocupação com as identidades, culturas, raças e o gêneros, tópicos esses tradicionalmente ignorados nas RI a favor de um enfoque mais direcionado aos Estados, às forças armadas e à diplomacia. Além do mais, os autores pós-coloniais dão importância à relação colonial para a compreensão do mundo, isto é, a relação entre (ex)colonizadores e (des)colonizados ao longo da história.
Um dos principais objetivos dos acadêmicos pós-coloniais é expor a extensão em que os nossos entendimentos de “senso comum” do mundo social estão firmemente fundamentados em uma perspectiva particularmente ocidental, o que constitui um ponto em comum com o Pós-Estruturalismo e o Pós-Modernismo. Por outro lado, destaca-se que o Pós-Colonialismo também está ligado com a tradição marxista, como evidenciado, por exemplo, no uso generalizado do termo gramsciano “subalterno”, combinando seu materialismo tradicional aos elementos subjetivos e à micropolítica de opressão. Da mesma forma, as análises pós-coloniais também compartilham o compromisso de acabar com a opressão de gênero das Teorias Feministas e Queer.
Por outra parte, Abrahamsen também menciona diversos autores decoloniais que contribuiram para a Teoria Pós-Colonial, tal como Franz Fanon, Albert Memmi, Amilcar Cabral, Aimé Césaire e Mahatma Gandhi. Esses escritores enfatizaram as múltiplas formas de violência na opressão colonial e expuseram seus impactos sobre as culturas, identidades e formas de resistência. Por último, também é ressaltado que a Teoria Pós-Colonial tem afinidades com a Escola Subalterna de Historiografia Indiana, que foi motivada pelo desejo de recontar a história a partir da perspectiva contra-hegemônica, centrando-se mais nas experiências dos colonizados, os “subalternos”.
Assim, outro ponto relevante destacado por Abrahamsen é que o prefixo “pós” em “pós-colonialismo” não deve ser considerado um marcador temporal direto, uma vez que ele não necessariamente implica um período “pós-imperialismo” enquanto sistema global de poder hegemônico. A autora cita a Spivak (1990), que afirmava que “vivemos em um mundo pós-colonial e neocolonizado”, ou seja, que as relações de poder e a divisão internacional do trabalho continuavam a ter um caráter colonial até a atualidade.
Em resumo, a conexão entre o passado colonial e o nosso presente pós-colonial é uma mistura complexa e contínua de diversas culturas e temporalidades que não podem ser analisadas de forma separada. Ou seja, em vez de apontar para períodos e espaços temporais ou geográficos fixos, as pesquisas pós-coloniais chamam a atenção para as continuidades, a fluidez e a interconexão econômica, política e cultural entre o passado e o presente nas relações entre o Norte e o Sul Global. Assim, as identidades dos atores do Norte e do Sul reforçam-se mutuamente por meio de um processo histórico e contínuo.
BIBLIOGRAFIA
- Burchill, Scott; Linklater, Andrew; Devetak, Richard; Donnelly, Jack; Paterson, Matthew; Reus-Smit, Christian; True, Jacqui (2005) Theories of International Relations. New York: Palgrave; Capítulo 10.
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