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Feminismos, Teoria Queer e Relações Internacionais: Implicações Políticas e Sociais para a Igualdade de Gênero e a Diversidade Sexual

Professora Helena Salim de Castro ministrando aula sobre Feminismos e Teoria Queer em 29 de agosto de 2023.

No dia 29 de agosto de 2023, a professora e doutora em Relações Internacionais (RI) Helena Salim de Castro (na imagem) foi convidada para dar uma aula sobre Feminismos e Teoria Queer como parte da disciplina “Teoria das Relações Internacionais II”, ministrada pelo professor Ramon Blanco de Freitas na Universidade Federal da Integração Latino-Americana.

O objetivo do encontro era proporcionar uma perspectiva ampla para que os estudantes do curso de Relações Internacionais e Integração conhecessem as teorias feministas e queer e suas contribuições às RI a partir da visão de uma especialista na área. 

Nesse sentido, a professora Helena explicou que as teorias feministas buscam analisar as RI a partir das relações de poder entre os indivíduos com base nas diferenças de gênero, dinâmica essa que acaba se estendendo ao âmbito internacional.

A professora começou a aula explicando que os estudos feministas ganharam força na década de 1980 no contexto do Terceiro Grande Debate, em que teóricos positivistas e pós-positivistas discutiam a neutralidade (ou a falta dela) nas diversas correntes das RI. Também se questionava o papel dos Estados enquanto únicos atores válidos dessa área de estudo, especialmente em oposição à Teoria Realista*.

Assim, muitas abordagens feministas adotaram uma posição pós-positivista das RI, defendendo que não existe uma separação real entre pesquisador e seu objeto de estudo, uma vez que suas ideias e perspectivas pessoais podem influenciar as análises. 

Em outras palavras, a ciência sempre serve para alguém e para um propósito, uma visão que também está presente na Teoria Crítica*

Seguindo essa lógica, as teorias feministas não buscam ser neutrais (no sentido positivista da palavra), e sim, promover a emancipação das mulheres através da compreensão das desigualdades de gênero, assim como da transformação das estruturas de poder tradicionais que, até agora, moldam a política internacional.

Entretanto, a professora Helena ainda destacou que não há um feminismo único, motivo pelo qual é mais adequado falarmos em “feminismos”, em plural. Assim, mencionou algumas das principais acadêmicas feministas da atualidade, como J. Ann Tickner, Cynthia Enloe* e Judith Butler

Da mesma forma, a professora enfatizou a importância de conhecer as obras de intelectuais feministas latino-americanas, como os livros “Por um Feminismo Afro-Latino-Americano” de Lélia Gonzalez e “Colonialidad y género” de María Lugones.

Por outro lado, a professora Helena também abordou a Teoria Queer, que começou a partir de um movimento social e acadêmico que questionava as percepções de gênero e de sexualidade ao analisar a exclusão dos sujeitos considerados “não-normativos” (indivíduos LGBTQ+) das estruturas e instituições de política internacional. 

Nesse sentido, mencionou-se o livro “Queer International Relations” da acadêmica Cynthia Weber, que é uma das principais intelectuais da Teoria Queer.

Assim, a Teoria Queer possui uma forte ligação com os estudos feministas e de gênero, podendo até mesmo ser considerada uma extensão deles. O foco principal da Teoria Queer, quando aplicada à análise das RI, é entender como as concepções socialmente construídas sobre gênero e sexualidade influenciam as estruturas e os espaços da política internacional, gerando a exclusão de sujeitos cujas identidades de gênero e sexualidades se afastam das normas estabelecidas. 

Busca-se, também, subverter essas estruturas de poder, visando contribuir para a emancipação e a igualdade das pessoas LGBTQ+ na sociedade. 

Em última instância, é importante destacar que tanto os feminismos quanto a Teoria Queer não se limitam apenas à análise acadêmica, uma vez que ambos movimentos possuem implicações políticas e de ativismo social que têm ganhado muita força nos últimos anos e que se empenham em promover a igualdade de direitos, a aceitação e a inclusão de grupos historicamente marginalizados, englobando diversas sexualidades e identidades de gênero.

* Artigos relacionados: 

Os Feminismos nas Relações Internacionais, segundo a visão de Cynthia Enloe

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