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Os Feminismos nas Relações Internacionais

No capítulo 9 do livro Theories of International Relations, a cientista política e professora estadunidense Cynthia Enloe apresenta de forma breve os elementos centrais que compõem as teorias feministas, abrangendo conceitos essenciais como o gênero e as dinâmicas de poder que permeiam a vida pública e privada dos indivíduos. Nesse sentido, o objetivo deste resumo é trazer a visão da especialista Cynthia Enloe no que se refere ao feminismo e as principais análises no campo de Relações Internacionais (RI) realizadas a partir dessa perspectiva teórica.

Em um primeiro momento, Enloe define o feminismo como uma visão do mundo multidimensional e multidisciplinar, uma vez que contém elementos analíticos de diversas disciplinas como história, sociologia, filosofia, antropologia, dentre outras. Assim, o feminismo explora o poder considerando as dinâmicas de gênero, ou seja, os papéis socialmente construídos que são atribuídos a homens e mulheres em cada sociedade e a forma em que isso impacta a sua organização política. Dessa forma, a autora destaca que as análises feministas não focam apenas nas mulheres, e sim na relação entre poder, masculinidades e feminilidades, reconhecendo que as normas de gênero afetam tanto homens quanto mulheres.

Consequentemente, Enloe afirma que uma análise política que considere irrelevante os papéis de gênero seria inadequada e até mesmo ingênua. Nesse sentido, a autora cita a Mary Wollstonecraft e o seu livro Uma Vindicação dos Direitos da Mulher (1792), em que critica o sistema patriarcal que fazia parte do pensamento “radical” dos homens franceses revolucionários. Expressões como “o homem racional” e “os direitos dos homens” implicavam, na sua visão, que apenas homens podiam ser alvo dos direitos e das obrigações próprios dos cidadãos, enquanto as mulheres ficavam no ambiente doméstico. Assim, Enloe destaca que muitos movimentos considerados revolucionários mantêm o sistema de poder preexistente, que fornece vantagens significativas aos homens: o patriarcado.

Seguindo essa lógica, a autora considera importante questionar o que é político e o que realmente permeia as dinâmicas de poder a nível local e global. Assim, autores feministas frequentemente fazem perguntas que os teóricos das correntes mainstream podem considerar triviais ou irrelevantes para o campo das RI, questionando os impactos que ações ditas “banais” chegam a ter na política internacional. 

Por exemplo, a autora afirma que durante o movimento abolicionista da escravidão, muitas mulheres inglesas realizaram um boicote a nível doméstico para não continuar comprando açúcar proveniente de plantações nas colônias escravizadas do Caribe, o que teve um impacto econômico internacional. Da mesma forma, muitas ativistas do processo abolicionista questionaram o papel do casamento e as restrições que lhes eram impostas com base nele. Outros exemplos do papel das mulheres apresentados pela autora foram a sua beleza enquanto ferramenta política para aumentar o prestígio nacional, assim como o dinheiro enviado por trabalhadoras imigrantes para as suas famílias, que muitas vezes acaba sendo crucial para a economia do seu próprio país.

Embora a autora tenha usado o termo “feminismo” no singular na maior parte do texto, ela esclarece que existem diferentes correntes teóricas feministas: liberal, socialista, radical, pós-estrutural e pós-colonial, cada uma com um foco específico. Assim, não existe apenas uma teoria feminista, fazendo com que haja muitas discussões e divergências internas. Enloe afirma que isso não é nada negativo, uma vez que enriquece o debate acadêmico por meio de diversas perspectivas e abordagens, evitando o surgimento de uma “teoria universal feminista”. Todavia, todas as teorias feministas têm em comum a análise para além da esfera pública, ao considerar as dinâmicas de poder com base no gênero e questionar o papel das mulheres em qualquer atividade política.

Desse modo, as teorias feministas questionam o papel dos Estados enquanto supostos atores naturais das RI, assim como o pressuposto de que Estados falam em nome das nações que representam. Enloe explica que uma análise feminista questiona tanto os Estados quanto as nações, pois ambos são construídos a partir de ideias específicas sobre feminilidade e masculinidade, sendo sobre essa base artificial que se formam movimentos nacionalistas, partidos políticos e até mesmo instituições estatais. 


Nesse sentido, muitos teóricos feministas ressaltam a relevância do sufrágio feminino (um direito conquistado há relativamente pouco em países ocidentais), assim como o papel do controle populacional através do aumento ou diminuição das taxas de natalidade, sendo esse último um tema de grande importância para os Estados e que depende, principalmente, do controle dos corpos das mulheres.

Há ainda muito trabalho a ser feito para reduzir a marginalização das mulheres na esfera pública, e especialmente, nos espaços políticos. No entanto, Enloe enfatiza que a disseminação das teorias feministas a nível global tem contribuído para que exista um aumento crescente de pessoas que trabalham em organizações como a Organização das Nações Unidas, a União Europeia ou o Banco Mundial em prol dos direitos das mulheres e tentando reduzir o privilégio masculino nesses espaços.



BIBLIOGRAFIA


- Burchill, Scott; Linklater, Andrew; Devetak, Richard; Donnelly, Jack; Paterson, Matthew; Reus-Smit, Christian; True, Jacqui (2005) Theories of International Relations. New York: Palgrave; Capítulo 9.

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