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Desconstruindo as Relações Internacionais: O Papel da Teoria Pós-Modernista

No capítulo 20 do livro “Teoria das Relações Internacionais”, o professor e Dr. em Ciência Política Gilberto Sarfati explica a Teoria Pós-Modernista das Relações Internacionais (RI), deixando em evidência os elementos centrais que moldam essa corrente das RI. Assim, o objetivo deste resumo é trazer os conceitos destacados por Sarfati com relação ao movimento Pós-Modernista das RI.

Em primeiro lugar, o autor destaca que o Pós-Modernismo pertence a um movimento que passa por diversas ciências sociais, criticando a suposta racionalidade do Modernismo derivada do pensamento filosófico iluminista. Dessa forma, pretende-se questionar os discursos que compõem as narrativas sociais. Sarfati menciona, em princípio, as contribuições de dois autores para o movimento Pós-Modernista: Michel Foucault e Jacques Derrida.

Por um lado, Foucault tenta identificar o contexto histórico em que o conhecimento é gerado, questionando também a influência do pensamento dominante vigente na produção de conhecimento. Assim, Foucault argumenta que as relações de poder materializam-se na produção de conhecimento.

Por outro lado, Derrida procura desconstruir o pensamento filosófico ocidental, deixando em evidência que os discursos presentes no pensamento ocidental moldam, também, as análises científicas. Nas palavras de Sarfati (2005, p. 240): “Derrida nota que toda análise supostamente científica é produto de leituras carregadas de visões próprias sobre o mundo.” Em qualquer caso, os discursos científicos adotam uma ótica hegemônica que concede vantagens a certos grupos enquanto marginaliza outros.

Dessa forma, tanto Foucault quanto Derrida chegam à conclusão de que a ciência não é produzida de forma neutral. Portanto, os teóricos pós-modernistas alegam que não existem teorias objetivas das RI, enfatizando a relação entre poder e conhecimento presente nos discursos que constroem essa disciplina.

Assim, um dos objetivos do movimento Pós-Modernista é desconstruir as visões que compõem as teorias tradicionais ou “mainstream” das RI, como o Realismo* e o Liberalismo*, estabelecendo um projeto de caráter emancipatório que traga à tona a perspectiva dos excluídos.

Nesse sentido, ressalta-se que um dos conceitos problematizados pelos pós-modernistas é o Estado, especialmente quando entendido como “unidade natural” para o estudo das RI. Sarfati destaca a visão do autor Richard K. Ashley, que sustenta que os Estados não são unidades pré-científicas ou pré-políticas e, portanto, é preciso entender como e por que essas unidades são formadas.

Assim, os teóricos pós-modernistas sugerem que os Estados surgem, dentre outras razões, para delimitar um determinado espaço geográfico sob um poder dito “soberano”, o que acaba por reforçar a relação entre aqueles que são de dentro (insiders) e os que são de fora (outsiders).

Dessa forma, os teóricos pós-modernistas também problematizam o conceito de anarquia nas RI, questionando se ela realmente é uma condição natural ou se é resultado da formação dos Estados. Nesse sentido, eles contrastam a soberania individual dos Estados com a anarquia que caracteriza o sistema internacional, desafiando a visão tradicional de que a anarquia é uma característica intrínseca desse sistema.

Portanto, muitos teóricos pós-modernistas argumentam que a anarquia não é algo preexistente, mas sim uma consequência das ações e discursos dos Estados. Além disso, Sarfati destaca que a desconstrução pós-modernista sustenta que não é possível construir uma ciência de RI, uma vez que as relações internacionais não se podem observar de forma objetiva. Consequentemente, os teóricos desse movimento alegam que as teorias de RI constroem uma realidade que não tem existência concreta, resultando na interligação indistinguível entre teoria e realidade.

Por outra parte, destaca-se que o projeto de desconstrução das RI também abrange temas de segurança internacional, uma vez que os conflitos e guerras são vistos como inerentes à construção dos Estados. Assim, autores pós-modernistas como Jean Baudrillard exploram o conceito de hiper-realidade, que se refere à forma em que a mídia passa a representar a realidade social, atenuando a diferença entre o virtual e o real.

Nesse sentido, Der Derian relaciona às guerras atuais a jogos de videogame, pois elas costumar ser planejadas e simuladas de forma virtual antes de realmente ocorrer. Segundo Sarfati, esse foi o caso na Guerra do Iraque, cuja preparação foi realizada através de um jogo de guerra denominado “Internal look 2002”.

Da mesma forma, teóricos pós-modernistas analisam a chamada “Revolução em Assuntos Militares” (RAM), na qual os combatentes matam os inimigos a distância, “como se estivessem em um jogo de computador ao ar livre.” (Sarfati, 2005, p. 246). Por sua vez, surge o conceito de “infoguerra”, que se refere à forma em que muitos conflitos modernos são transmitidos ao vivo, como se fossem programas de entretenimento. Assim, a relação entre guerra e mídia é analisada de acordo com os seus impactos sociais na atualidade.

Para concluir, podemos afirmar que a Teoria Pós-Modernista das RI desempenha um papel essencial ao questionar e desafiar os conceitos tradicionais no campo das RI. Assim, sua contribuição reside na capacidade de revelar as dimensões ocultas do poder e das narrativas hegemônicas que influenciam a formulação de políticas internacionais. Ao destacar a natureza construída do conhecimento e das estruturas do sistema internacional, essa teoria promove uma compreensão mais holística e crítica das relações globais.

Além disso, ao enfatizar a importância da inclusão das vozes marginalizadas e a análise das interações entre mídia e conflito, os acadêmicos pós-modernistas incentivam uma abordagem mais ética e responsável nas RI, enriquecendo o campo com perspectivas diversificadas e reflexões profundas sobre as complexidades das relações internacionais contemporâneas.




BIBLIOGRAFIA

- Sarfati, Gilberto (2005) Teoria das Relações Internacionais. São Paulo: Editora Saraiva, Capítulo 20.

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