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A multidisciplinaridade no campo das Relações Internacionais

Imagem de uma pessoa escolhendo entre diversos livros em uma estante de livraria, representando a natureza multidisciplinar das Relações Internacionais e os desafios que isso traz para a área.

Recentemente, estava assistindo a um vídeo de um estudante da área de Relações Internacionais (RI) na Universidade de Gênova, Itália. No vídeo, ele falava de forma geral sobre como era o curso, assim como suas críticas a respeito.

Tudo o que ele disse soou muito familiar para mim: “o curso é vago demais”, “tenta abranger muitas áreas de conhecimento”, e por último, talvez a frase mais marcante: que o curso tratava “sobre tudo e sobre nada” ao mesmo tempo.

Ou seja, eram as mesmas críticas que eu mesmo já fiz a respeito do meu curso, Relações Internacionais e Integração. Na verdade, a graduação que o cara do vídeo fazia também tinha um nome um pouco diferente: Ciências Internacionais e Diplomáticas (em italiano, “Scienze Internazionali e Diplomatiche).

Mesmo assim, as grades curriculares de ambos cursos são muito semelhantes, sendo praticamente equivalentes a nível acadêmico e profissional.

O mesmo ocorre com a graduação em Estudios Internacionales, na Universidade Central da Venezuela; Global Studies, na Universidade de Saint Martin, Estados Unidos; assim como o programa de Politique Internationale da Universidade Lumière Lyon, na França, e assim por diante. Exemplos são inúmeros.

Mas, a que se deve que o mesmo campo de estudo receba tantos nomes diferentes, ainda que similares?

Afinal, quando falamos em graduações do tipo Economia, Engenharia ou Medicina, raramente há muita diferença, se é que há alguma, entre as nomenclaturas usadas em um ou outro país. Sendo assim, por que RI é tão diferente?

Bom, isso tudo é resultado de um debate teórico que dura até hoje, e que remonta à origem das Relações Internacionais enquanto área acadêmica, em 1919.

Naquela época, a Primeira Guerra Mundial tinha causado um forte impacto na Europa e no resto do mundo, e a necessidade de formar especialistas que conseguissem analisar o que ocorria no cenário internacional (a fim de evitar uma nova guerra) ficou cada vez mais evidente.

Na imagem, mostra-se a arquitetura clássica dos prédios da Universidade de Aberystwyth, que remonta ao século XIX.

Foi naquele contexto que a Universidade de Aberystwyth (na imagem), do Reino Unido, tornou-se a primeira a criar uma cátedra voltada exclusivamente ao estudo das RI, exemplo que seria seguido por outras instituições.

No entanto, o surgimento das Relações Internacionais enquanto área acadêmica trouxe consigo muitos desafios. Afinal, qual é o objeto de estudo dessa disciplina? Quais são as ferramentas de análise que permitem abordá-lo? E ainda, qual seria o papel profissional dos internacionalistas?

Todos esses aspectos, dentre muitos outros, ainda são amplamente discutidos pelos acadêmicos das RI, que, falando em discussões, ainda não chegaram a um consenso sobre um nome específico para a disciplina. É isso que explica, em parte, a diversidade de nomes mencionada anteriormente.

Assim, desde o início, ficou claro que esse novo campo de estudo teria um caráter multidisciplinar, bebendo das fontes de muitas outras ciências sociais, mais consolidadas ao longo do tempo.

Por um lado, isso não era apenas algo positivo, mas também necessário, considerando a complexidade dos temas abordados nas RI.

Por outro lado, essa alternância entre disciplinas faz com que os estudantes de RI tenham dificuldades para explicar com clareza o que é ensinado no curso, especialmente durante os primeiros semestres.

Da mesma forma, parece que esse dilema também se estende ao corpo docente dos cursos de RI, tanto dentro quanto fora do Brasil.

Afinal, o que deve ser ensinado no curso? Deve haver um maior foco em Direito, Economia, Política, ou em outra área? Quais são as expectativas profissionais em relação aos formados?

As possíveis respostas para essas perguntas não são estáticas. Há muitos fatores a serem levados em conta, até mesmo porque uma instituição pode preferir dar mais atenção a algumas disciplinas do que a outras.

Imagem da Biblioteca Central, a maior biblioteca da Universidade Central da Venezuela, rodeada por um ambiente verde e uma escultura artística em primeiro plano.

Por dar um exemplo, na Universidade Central da Venezuela, que se pode observar na imagem, o curso de Estudios Internacionales tem uma ênfase bem marcada em Direito Internacional e Economia.

Por outra parte, no Brasil, as graduações em RI possuem uma série de características em comum, conforme o estabelecido pelo Ministério de Educação, mas, na prática, cada instituição ainda possui certa autonomia para estabelecer suas grades curriculares.

Isso sem contar que, ao buscar compreender os fenômenos que ocorrem no cenário internacional, o estudo das RI foi sempre muito dinâmico. Assim, quem se dedica a essa área adquire também o compromisso de se manter atualizado e flexível a todo momento.

Na minha universidade, por exemplo, a grade curricular já foi mudada várias vezes nos últimos anos.

Mesmo assim, os cursos de RI têm que preservar uma certa abrangência que forneça aos formados as bases necessárias para manter essa visão multidisciplinar na hora de desempenhar-se profissionalmente.

É todo um desafio. Por sua vez, os estudantes terão que aceitar que o curso pareça tratar “sobre tudo e sobre nada”, como disse o meu colega italiano, porque a própria essência da nossa área assim o requer. 

Fica aos internacionalistas, então, a responsabilidade de continuar aprendendo e se especializando, visando aplicar seus conhecimentos de forma prática em seus campos de trabalho. 


Caso deseje saber mais sobre o curso de RI, suas principais disciplinas e áreas de atuação dos formados, sugiro que confira esse artigo.



Por último, não hesite em deixar sua opinião, perguntas ou sugestões nos comentários abaixo!

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